A tarde já vai ida

 

Se alguma vez eu escrevesse um livro, punha-lhe este título: A tarde já vai ida. Ouvi esta frase da nossa vizinha de talhão, uma senhora que maneja a enxada com grande à-vontade e que dispensa, por isso, a formação que a Câmara nos concede. Achei-lhe piada aos ténis New Balance cor-de-rosa à porta do talhão, pousados em cima de uma saca para não se sujarem, à espera de substituírem as galochas enlameadas quando, em breve, fosse hora de ir para casa. A tarde já ia ida e eu ainda tencionava lá ir. E fui, ainda que sozinha, como se veio a proporcionar. Entrei no talhão como se de uma casa estranha se tratasse, como quando ficamos suspensos na dúvida se é para tirar os sapatos, se devemos pedir licença ou fazer de conta que estamos na nossa casa. Avancei, a medo, talhão adentro, anotando mentalmente as raízes e pedras que encontrava pelo caminho, ao longo dos 70 m2 que me pareciam infindáveis. Não sabendo por onde começar, comecei pelo que o instinto me dizia, desfazendo torrões, afastando pedras, arrancando raízes, levando o indesejado para o contentor ao fundo das hortas, decorando a bordadura do talhão com as pedras maiores, mas sem realmente fazer grande coisa. Descansei por detrás da ideia de que seria preciso ir primeiro à formação, aprender para depois fazer, antes de entrar por caminhos desconhecidos. A tarde ia ida. Quando de tanto ida, já era, voltei eu para casa.

No domingo seguinte, já com algumas horas de formação a dar-nos coragem, deitámos mão ao trabalho, mas foi a força de braços dele que garantiu os maiores avanços. Eu tinha a mais pequena atrás de mim, aos gemidos, receosa de andar sobre a lama, como se pudesse pisar alguma parte mais instável e o chão se lhe fosse abrir debaixo dos pés. Que raio, pensei. Quem te vir, pensa que sempre foste miúda da cidade e ainda antes de aprenderes a andar já vivias no campo. Mas é uma questão de tempo, bem espero, até se afeiçoar às galochas e ao silêncio no meio das árvores. Não tarda, andará a apanhar bichos-pau e a amedrontar-me com grilos dentro de frascos. Ou coisas piores.

Está-se bem ali. Parei e respirei fundo. Olhei a sobranceira árvore desnuda no horizonte, pouso de corvos que oiço crocitar, a par de outros sons que não sei identificar, e pensei nos texugos que se diz que por ali andam, uma família inteira à espera dos primeiros cultivos. Texugos! Nem sabia que os havia por ali. Mas no dia a seguir a plantarmos as primeiras alfaces, as primeiras beterrabas e couves de cortar, os brócolos e a couve-flor, ainda estava o talhão intacto, nem as plântulas cresceram por artes divinas nem foram arrancadas por garras de mustelídeos. Talvez tenhamos sorte. Ou talvez estejam simplesmente à espera da batata doce.

Seja como for, a tarde já vai ida. É tempo de recolher e deixar a natureza crescer.



1 thought on “A tarde já vai ida”

  • Eu acho isto uma falta de consideração… Então vocês acham que eu já não tenho mais que fazer? Acham que me sobra tempo? Quer-se dizer, já me bastava não ter tempo para ver todos os conteúdos de qualidade no YouTube ou séries que gostava de acompanhar, já não me bastava ter 11 horas de diferença para os jogos da bola ou dos noticiários e agora ainda tenho que arranjar tempo para me entreter a ler estes belíssimos textos? Mas isto tem algum jeito?

    Parem lá mas é de escrever estas coisas e dediquem-se antes a fazer comentários amargos nos sites dos jornais online como toda a gente sabe que é onde se deve gastar tempo a escrever! O que é que as vossas filhas ainda vão pensar? Qualquer dia ainda começam a aprender qualquer coisa de jeito e quiçá até a ter orgulho nos pais… Que horror!

    Façam-me lá esse favor e parem de escrever aqui cenas destas e estar agora a fazer relatos sobre as desventuras de um casal de amigos se andar a dedicar ao cultivo de coisas hortícolas ou lá o que é…

    (pensando bem, ainda podem escrever mais um ou dois textos, vá, mas não abusem! 😊)

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