Ninguém disse que ia ser fácil

É fácil desmotivar. Se deixarmos a horta entregue à natureza, cedo percebemos que a natureza, sozinha, não consegue fazer o seu trabalho. Que o digam as hortas dos vizinhos. Apesar do avançar do Inverno, não há geada que lhes queime as alfaces nem frio que atrase o desenvolvimento folicular das couves. As hortas dos vizinhos, que viram as primeiras sementes exactamente ao mesmo tempo do que a nossa, ou mais tarde, estão em pleno florescimento, o que quer dizer que as suas plantas já se vêem ao longe, o que não acontece com a nossa que, vista da entrada, parece um talhão em pleno pousio. E alagado.

No nosso talhão, a única coisa que cresce a olhos vistos com saúde e esplendor são as favas, para nosso grande alento. Mas tudo o resto desfalece. Folhas amarelas, alfaces queimadas pela geada, pés de couve que teimam em crescer. Entramos nas hortas dos vizinhos para ver como fazem. Há claramente aqui uma diferença gigantesca no grau de experiência que cada um apresenta, não é preciso ser nenhum génio para perceber isso. Por exemplo, a maior parte dos vizinhos protegeu as alfaces contra a geada usando garrafões de água cortados ao meio e abertos em cima. Fora isso, há umas bolinhas azuis aqui e ali, perto dos pés de couve, denunciando práticas que nós achávamos desnecessárias. Mas afinal isto não era para ser em modo de agricultura biológica?

Ficamos baralhados, não sabemos o que fazer. Mas o vizinho do talhão n.º 1, um hortelão dedicado que claramente sabe o que faz, avisou-nos: “Não queiram soltar a terra, não… Isso assim nunca mais cresce. E, se fosse a vocês, comprava um 20-20-20.” Soltar a terra fez-nos sentido. Esta terra é demasiado argilosa, propícia ao desenvolvimento de infestantes que nascem apressadas e desnorteadas. Mas o que seria um 20-20-20? Ainda na horta, o Google dá-nos a resposta: um fertilizante com 20% de potássio, 20% de fósforo e 20% de azoto (a falta de azoto retarda o crescimento da planta e as folhas amarelecem, já nos tinham dito na formação). Aquelas bolinhas azuis de há bocado. Biológico, pois sim.

Novo plano de intervenção. Pegamos na família e passamos a tarde na horta, a sachar a terra em redor da planta, retirando todas as infestantes pela raiz (em alguns casos, foi necessário retirar a planta com cuidado e voltar a plantá-la), soltando a terra à volta para permitir uma melhor permeabilidade do solo. Ou lá o que é que isto proporciona. Na cooperativa deram-nos um saquinho de azoto que aplicamos junto às plantas com devoção e esperança renovada. 

Regamos e esperamos. Na semana seguinte, no sítio onde sachámos ainda não se avistam as malditas infestantes e algumas alfaces já arrebitam. Por fim! Arranjamos alguns garrafões que usamos para proteger as alfaces mais fragilizadas (breve discussão sobre se seria melhor tentar salvar o que parece não ter salvação ou proteger as que renasceram.) 

Nova tarde em família para sachar os espinafres, mas estou em crer que esses já estão perdidos para sempre. E as cenouras, coitadas…

As miúdas brincam com a terra e procuram minhocas enquanto nós enchemos uma caixa com infestantes e ponderamos tomar qualquer coisa para as dores nas costas. Tiramos uma última foto para o blog e eu penso que, mesmo que a colheita deste inverno não seja profícua – que está-se mesmo a ver que só as favas é que se vão safar e uma ou outra alface, olha, paciência – o que importa é que, em 2018, continuemos a ter prazer em vir à horta, em família, que elas se continuem a sujar e a fazer chupas-chupas de terra, enquanto nós vamos dando cabo das costas e percebendo um pouco mais disto. Ainda que seja pouco mais do que nada. Mas já é mais do que era.

Semente a semente, infestante a infestante, com ou sem bolinhas azuis, havemos de lá chegar.

A todos, um excelente 2018!

 



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